A arte de não fazer sentido

Naturalmente, o cinema comercial tende a criar filmes a) fáceis de entender e/ou b) filmes que possuam uma fonte conhecida e que seja passível de adaptação cinematográfica. Não preciso citar exemplos, pois 90% dos filmes lançados todos os anos podem ser classificados na opção a ou b. Mas quando se encaixam exclusivamente na opção b os produtores, geralmente, tendem a simplificar a história se ela for muito confusa. Poucos filmes são adaptados fielmente dos livros ou outras mídias quando tem uma história complexa demais. Deste ano temos “Shutter Island” que, em livro, aprofunda-se mais na psicologia e na investigação do que no filme, onde você apenas acha que está vendo uma história e na verdade não é isso, muito mais simplista que a obra literária.

Passando estes dois tipos básicos de filmes, temos os filmes “cabeça” ou “cult” (notando que “cult” muitas vezes se refere a filmes que tem uma legião de seguidores, sendo eles um sucesso comercial ou não, por isso o termo pode ser usado incorretamente). “Memento”, “Donnie Darko” e “Efeito Borboleta” são exemplos de filmes cult que são (uns mais outros menos) difíceis de entender. Partindo do melhor (“Memento”) para o pior (“Efeito Borboleta”) podemos perceber o tema comum entre eles que é, obviamente, o tempo em várias facetas. O filme alvo de crítica neste post também fala sobre o tempo. Mas também sobre o Big Bang e o Big Crunch (a teoria-irmã do Big Bang, que diz que em algum momento o Universo vai parar de se expandir para, ao contrário, se retrair até um único ponto de singularidade). Sobre a teoria das cordas, sobre viagens espaciais de longa duração, sobre imortalidade e, acredite se quiser, sobre realidade simulada ou coisa que o valha. O filme é “Mr. Nobody”.

Mr. Nobody

Mr. Nobody (2009): bonitinho porém uma confusão

A primeira coisa que chama a atenção quando você encontra com “Mr. Nobody” é o ator principal. Jared Leto está se acostumando a atuar em filmes difícieis, seja de assistir ou de entender. Toda a bela fotografia, sons e planos que “Mr. Nobody” tem (que, diga-se, são o grande atrativo a assistir as duas horas de filmes e não desistir) faltam no outro grande filme dele “Requiem para um sonho”. Não que “Requiem…” seja ruim, pelo contrário, mas a temática e o clima do filme são pesados, fazendo com que você até sinta-se mal a medida que o filme termina. Nele, você termina pra saber o que acontece na história, torcendo pra que acabe logo. “Mr. Nobody” flutua por paisagens bonitas e pessoas bonitas, que te fazem continuar, mesmo sem entender nada.

É difícil explicar qual é o tema do filme. Nele, um homem de 118 anos está contando/tentando lembrar/revivendo sua vida. Cada decisão feita é mostrada, ou seja, o personagem toma uma decisão e depois mostra o que acontece se tivesse tomado a outra decisão. Só que a construção do filme não explica exatamente o que é real, o que é fantasia, não explica absolutamente nada. No final, você nem sabe se o homem tinha 118 anos mesmo, se ele estava lá. Some-se a isso viagens espaciais e um programa sobre física moderna (?) e você tem as história do filme. Muito bonito se o filme fosse dividido em 3 partes e contasse as histórias separadamente. Mas não é.

Jared Leto e Diane Kruger em "Mr. Nobody": uma história de amor ou uma experimentação físico-teórica? Os dois, possivelmente.

As histórias são contadas simultaneamente, todas misturadas, muitas vezes divididas apenas por planos ou cortes. Você não sabe exatamente em que parte temporal da história está e em qual história está. É um filme, pra se dizer o mínimo, muito experimental.

Há de se dizer, porém, que o filme é bom. Você não vai entender o começo, o meio ou o fim do filme, mas não sairá decepcionado. No final, percebe-se que não era necessária uma explicação, já que não havia pergunta nenhuma a ser feita. O filme todo funciona como uma história só totalmente desfragmentada. O questionamentos feitos pelo protagonista no final são interessantes, mas filosóficos demais. E o final não acrescenta em nada na história, mas também não confunde o que você já assistiu.

Mr. Nobody, é uma produção belga de 2009 que ainda não foi lançada no Brasil.

Rating: ★★★½☆

Eminem volta a ser Eminem

Duas semanas atrás tive o grande prazer de ser “induzido” a ouvir o novo CD do Eminem, “Recovery”. Após anos de afastamento do cenário musical (muito em parte pelos problemas relacionados as drogas) eram dois os sentimentos que norteavam o pré-ouvir o disco: 1) Eminem é um artista completo. Escreve suas canções, tem ritmo próprio e sabe cantar em parceria; 2) Eminem se perdeu no mundo das drogas e da fama e não conseguiria fazer um CD realmente bom de novo.

Felizmente, no final das contas, o primeiro sentimento prevaleceu. O disco é ótimo, com letras bem construídas e parcerias que adicionam algo a qualidade do CD; não estão lá só pra fazê-lo vender. A primeira música de trabalho, que apresenta Rihanna, “Love The Way You Are” tem o ritmo certo para os ranking musicais, mas não empolga tanto quando “Won’t Back Down” (com P!nk), “Seduction” ou “So Bad”. O dance-rap de Lil Wayne em “No Love” dá um tempero diferente ao disco, que termina mais classicamente, com “Untitled”. “Cinderella Man”, apesar do nome engraçado, surge como a mais fraca de uma obra bastante inspirada.

Recovery (2010)

Recovery (2010): Introspectivo, Eminem retoma o posto de grande músico

Tracklist:

  1. Cold Mind Blows
  2. Talkin´ 2 Myself
  3. On Fire
  4. Won´T Back Down
  5. W.T.P.
  6. Going Through Chanfges
  7. Not Afraid
  8. Seduction
  9. No Love
  10. Space Bound
  11. Cinderela Man
  12. 25 to Life
  13. So Bad
  14. Almost Famous
  15. Love the Way You Lie
  16. You´re Never Over
  17. Untitled

Rating: ★★★★½

“Recovery” está disponível no Submarino, Saraiva e também na iTunes Store

Filmes completos no YouTube

Finalmente o YouTube chegou em acordo com algumas produtoras de filmes e conseguiu disponibilizar for free alguns filmes. Existe um portal dedicado a esse segmento, o YouTube Movies.

Florescem, neste primeiro momento gêneros como terror, Bollywood e algumas comédias antigas. Clássicos, porém, também estão no menu de entrada, como o filme “A Revolução dos Bichos”, de 1954, adaptação da magnífica obra de George Orwell. Mas não dá pra negar que a maioria dos filmes são, por enquanto, clássicos do terror trash que ninguém ouviu falar. Logicamente, com o passar do tempo, novas parcerias devem ser feitas, ampliando e melhorando o acervo do serviço.

Não existem, por hora, legendas em português para os filmes.